Profissão: oiadô de carros - Parte 1
Conforme prometido, estou inaugurando a sessão “Por fora da balada“, mas não está no Blogueiro Pobre. Por quê? Porque no blogspot não dá pra escolher categorias, então todo o conteúdo que eu escreveria lá, passarei a escrever aqui…
O que é a sessão Por fora da balada?
Sabe aqueles trouxas que ficam na porta da balada com seus carros tunNnNnNnNning (que o Cassiano ainda vai explanar melhor) e nunca entram? Sim, o objetivo é falar sobre o que esse pessoal mais vê, e porque não começar com os “oiadores de carros”? Não sabe o que são os oiadores de carros? Não se afobe, já já eu conto…
Também aproveito para inaugurar a sessão “Seu futuro”, para falar sobre as profissões que o Mobral (o projeto, não o blog) ajudou a criar… Por que não falar, então, dos oiadores de carros?
Gostaria de começar falando de duas cenas que me marcaram:
1. Certo dia, estava eu comendo lanche no Chicão quando chega um cara pedindo dois lanches, um para ele e outro para levar. Ao pagar, deve ter dado uns seis reais só de moedas… Aí eu, curioso, perguntei se ele tinha roubado a igreja… quando ele respondeu, rindo: “Não, é que nóis óia carro, aí gira muita moeda.”
2. Quando estava saindo do Expresso Sorocabano, um tiozinho me para e cobra pelo serviço de olhar os carros. Calmamente, eu perguntei: “Qual é meu carro?”. O cara respondeu: “Num sei, eu sou oiadô. Nóis só óia os carro aí e num deixa nada acontecer”.
É deiz reau na minha mão ou eu risco a lataria inteira!
Pronto! Os olhadores são os flanelinhas. Pensando nisso, decidi ir às ruas, a pé, como todo bom pobre que não entra na balada faz (a menos que tenha um carro tunnnnnado) e entrevistar esses filhos da puta caras que ficam por aí olhando os carros das pessoas. O local escolhido para fazer a pesquisa foi no Expresso Sorocabano, pois todo mundo fala que o carinha lá é cuzão difícil de lidar, chega na grosseiria e tal…
Calça jeans, coturno (a gente nunca sabe o que encontra por aí) e jaqueta. Peguei o celular que estava sem créditos, dez reais para o caso de ser assaltado dar vontade de comer alguma coisa e fui.
Ao chegar no Expresso, decidi entrar pela rua onde os carros param, assim, uma abordagem do sujeito seria mais fácil e, assim, eu iniciaria a entrevista. Felizmente, ou infelizmente, o cara estava ajudando outro cara a sair da vaga, posto que este não estava observando bem a nova lei de trânsito e deve ter bebido um pouco. Decidi então, entrar no meio do pessoal que ficava na rua ao lado do referido bar, posto que lá dentro não tinha mais espaço, dar uns cinco minutos e voltar para tentar ser novamente abordado.
Quando saí, o oiadô ficou me encarando feio, quando eu comecei a entrevista:
Borin: É você que olha os carros aqui?
Sujeito: É. Sou eu sim.
Borin: Estou fazendo um trabalho de faculdade, um TCC sobre trabalhos informais e eu gostaria de fazer umas perguntas. Tudo bem pra você? (Porra, se eu falasse que era do www.mobral.com, no mínimo, eu ia tomar umas porradas)
Sujeito: Pode sim, mas tem que ser ali na esquina, porque eu tenho que olhar esses carros. (Ponto positivo, ele realmente vigia os carros)
Borin: Não me apresentei ainda. Meu nome é Luis. O seu?
Sujeito: Marcelo. (Vou passar a me referir como Marcelo)
Borin: Marcelo, há quanto tempo você olha carros?
Marcelo: Nessa rua, eu estou há aproximadamente seis meses. Antes eu olhava a rua de baixo, aí também eu já olhei perto do fórum… deve fazer uns quatro anos que eu faço isso.
Borin: Legal. Qual a sua idade?
Marcelo: Eu tenho 24. (Porra, quase a mesma idade que eu!)
Borin: E você faz algum outro tipo de atividade remunerada?
Marcelo: Atualmente, não. Já trabalhei de servente de pedreiro, montador de estrutura pré moldada, atendente de supermercado, (várias outras profissões depois… várias mesmo, não lembro de tudo), já fiz de tudo um pouco.
Borin: É realmente bastante coisa… (a partir daqui eu não fiz nenhuma pergunta, o cara já foi conduzindo tudo sozinho, eu só fui cutucando em algumas coisas)
Marcelo: Ah, assim, eu não quero isso pro resto da vida, tá ligado? Eu tenho pretensão de arrumar um emprego legal, fazer tudo direito, mas o que ferra com a gente é que tem esse negócio de experiência… aí às vezes os caras sugam a gente nos três meses, a gente dá um trampo legal e tal, aí depois dizem que num dá mais certo. Assim, eu não tenho faculdade, mas tenho segundo grau completo, tenho histórico, um curriculum legal, já é uma referência, mas aí então, eu tenho o nome sujo no Serasa. Aí isso dificulta um pouco pra arranjar emprego. Agora eu tava trocando idéia com um magnata aí… o cara já gostou de mim… quem sabe não aparece uma oportunidade… (é… quem sabe…)
Borin: E alguma vez, já aconteceu de tentarem assaltar os carros com vc olhando?
Marcelo: Já, já sim…
Borin: E o que você faz quando isso acontece?
Marcelo: Então, já aconteceram várias vezes, aí a gente chega, na camaradagem, dá idéia no cara e tal… o cara normalmente desiste e vai embora (fico imaginando quando ele não desiste)… mas assim, graças a Deus, nada de mais grave chegou a acontecer.
Borin: Nunca precisou cair na porrada, nem nada?
Marcelo: Não, não, tudo tranquilo…
Borin: E o pessoal pra pagar? É tranquilo?
Marcelo: Então, assim… eu não cobro, tá ligado? Os caras têm que perceber que a gente tá aqui olhando o bem patrimonial deles de mais de vinte mil reais, pra evitar que as coisas aconteçam… (quando passavam pessoas por ele sem dar nada, ele falava um pouco mais alto) O dono do carro tem que ter a consciência que eu to aqui olhando pra ele, tem que reconhecer o meu trabalho… tem muita gente que não dá valor… Eu dou valor para o que eu faço! Aí tem cara aí que vem de carrão, vem sempre e na hora de pagar diz que não me reconheceu… não tem como! Não tem como!
Borin: Legal, Marcelo. Olha, acho que já tenho toda a informação que eu precisava, aí eu queria te dar uma grana pelo seu tempo aí que você gastou comigo. Não é muito, até porque eu não saí com muita grana de casa, mas aceita aí! (dava um real certinho de moedas, mas foi pura coincidência, eu tinha contando enquanto estava “dentro” do Expresso)
Marcelo: Não, que é isso? Quando você vier de carro você dá… hoje não, imagina… deixa pra lá…
Então, eu fechei minha carteira e segui meu caminho, a pé, para o Dr. Chopp e o Yoshi’s. Mas isso eu vou deixar pra contar amanhã.
Até mais,
Borin, dessa vez, com mais… ainda tem a entrevista com o tiozinho, que eu achei muito legal… e se der ainda uma conclusão sobre tudo isso.
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julho 22nd, 2008 at 7:32 am
Continuo achando esse cara cuzão!
julho 22nd, 2008 at 10:06 am
Tb acho… uma vez ele me cobrou 3 reais por “oiá” meu carro… ele deve ter xingado até minha última geração, pq deixei 1 real na mão dele e xau xau…:D
julho 22nd, 2008 at 12:27 pm
Sempre dei a desculpa de que eu não tinha trocado, até que um dia esse FDP do expresso falou: Ah blz, eu tenho troco para R$10,00!!! hahahahah FDP!!!
julho 22nd, 2008 at 5:49 pm
Porto… sempre inovando nas idéias…
Vamos ver a próxima.
julho 22nd, 2008 at 8:50 pm
Bacana a mátéria…
julho 23rd, 2008 at 8:08 am
Borin, vc ja nuam acha que esta na hora de enviar um CV para a rede GLOBO para o programa profissão reporter…??? uhauhauhauahauahu, mas falando nesses FDP, o cara outro dia tirou um bolinho (super bolinho) de notas de 1 real para me oferecer troco, pois tinha dito que não tinha trocado….eles nos fazem sertir obrigados a pagar….
julho 23rd, 2008 at 10:41 pm
[...] você ainda não leu a Parte 1 desta série, leia, porque ficará mais fácil de você [...]